Giro Ipiaú

O “triste fim” da Quadra 17, uma comunidade abaixo da linha da pobreza

Ipiaú – Acocorado na sombra do cacaueiro um menino de 13 treze anos presenciava a demolição da Quadra 17. Seus olhos fuzilavam a máquina que derrubava os casebres de taipa revestidos do barro vermelho, colhido no barranco onde estavam encostados. Nenhuma lagrima, nenhum gesto, além do olhar fixo na cena que lhe arrancava raízes e lembranças. Sua infância foi vivida por ali, ouvindo os pássaros, acompanhando os pais na rotina de tirar do lixão a própria sobrevivência.

As 15 moradias que formavam o arruado, isolado num descambo do recanto mais distante da Vila Irmã Dulce, estavam condenadas a desaparecer. Todas elas haviam sofridos fortes abalos com o deslizamento do íngreme e retilíneo paredão. Algumas encontravam-se soterradas. As famílias que nelas habitavam estavam abaixo da linha da pobreza. Complementavam a difícil sobrevivência com a cesta básica que recebiam mensalmente da Prefeitura de Ipiaú e o rendimento da Bolsa Família. Vez por outro alguém lhes dava sopa, mingau, pão, agasalhos e até remédios.

No lixão

Os paupérrimos moradores da Quadra 17, notadamente os que ocupavam uma estreita faixa da Fazenda Jaguarão, removiam o lixo em busca de material reciclável que vendiam barato a um comprador de plantão. Pouco se importavam com as moscas, ratos e escorpiões que proliferavam naquele ambiente insalubre.

A comunidade tinha cerca de 40 moradores que já não contavam com o fornecimento legal de agua potável e energia elétrica, por estarem inadimplentes com a Embasa e a Coelba. Sem outra alternativa apelavam para os famosos “gatos”, ligações clandestinas que invariavelmente eram caçados por prepostos das duas empresas. Efeito dominó, sequência de sofrimento.

Nas casas não existiam vasos sanitários e por isso os moradores faziam as necessidades fisiológicas no meio do mato ou em sacos plásticos que eram arremessados à distância. Uma idosa, com distúrbios mentais, nem se dava a esse trabalho. Era em qualquer canto da casa que ela se desapertava.

No interior de outra residência criavam-se porcos junto com as crianças. Numa engenhosidade rupestre escavavam o barranco para improvisar fogões onde cozinhavam o parco alimento. Em todos os casebres sacolas de lixo esperavam o comprador, escorpiões se escondiam nos cantos mais escuros. Cobras venenosas rastejavam por perto.

Sobressaltos

Foto: Arquivo

Apesar das inúmeras dificuldades, a população do miserável vilarejo vivia em harmonia. Eram solidários e raramente verificava-se algum desentendimento, porém não estavam livres de sobressaltos. Certa vez um boi despencou do alto do barranco sobre um dos barracos. Felizmente não houve vítimas, só danos materiais. A cena se repetiu com outro bovino e um cavalo. Em outra ocasião bandidos promoveram um “arrastão” roubando todos os telefones celulares dos moradores locais. O pior estaria por vir.

Tiroteio

Na madrugada do dia 24 de outubro do ano passado ocorreu algo bem mais violento. Quatro criminosos à procura de um outro marginal que costumava refugiar-se na área invadiram cinco domicílios até chegarem no que estavam os irmãos Romildo, 15 anos, e Alexssandro, 18 anos. Efetuaram mais de 10 disparos de arma de fogo, executando o primeiro e deixando o segundo gravemente ferido. Antes de fugirem, arrombaram a janela do barraco e deram mais uma saraivada de tiros.

Apurou-se posteriormente que as vítimas não tinham qualquer ligação com o mundo crime, apenas o vacilo de terem se deixado fotografar ao lado do bandido que vinha sendo procurado por seus rivais.

Soterramentos

Final da manhã do dia 24 de dezembro de 2021, véspera do Natal, o tempo fechou. Começou a cair uma chuva torrencial que se prolongou por mais de 30 horas ininterruptas. A tão esperada “Noite Feliz”, foi caracterizada pelo desespero. Inundações, deslizamentos de terras, soterramentos em diversos pontos de Ipiaú. Na Quadra 17 não seria diferente.

Parte do barranco desabou sobre os barracos, estabelecendo o pânico entre os moradores. Outros deslizamentos foram registrados na área. Felizmente não se verificou mortes, mas foi o suficiente para a Prefeitura entender que aquele espaço era de altíssimo risco para habitações humanas. O fim do frágil arruado estava decretado.

O fim

Os moradores foram intimados a deixarem o local e seguirem para alojamentos providenciados pela Prefeitura que anteriormente lhes propôs a transferência para imóveis alugados pelo município. Alguns preferiram ir para a casa de parentes ou amigos. Provavelmente tenham pensado em resistir e reconstruir o patrimônio perdido, mas tiveram que aceitar.

Sexta-feira, 31 de dezembro, último dia do ano de 2021. A retroescavadeira mandada pela Prefeitura realizou o desmanche diante do olhar fuzilante do menino que estava acocorado sob a sombra do cacaueiro. Sua memória guardará para sempre aquela cena final da Quadra 17.

*Por José Américo Castro/GIRO


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