
*Por José Américo Castro
Eles eram discretos, honestos e trabalhadores. Deixaram bons descendentes e tiveram origem na Toscana, região central da Itália, famosa por suas paisagens de colinas e referências históricas, com destaque para a arte renascentista e por ser terra de Michelângelo, Leonardo da Vinci, dentre outros gênios da pintura universal.
O patriarca da família, talvez a única com o sobrenome Panelli na região de Ipiaú, chamava-se Luigi. Nasceu em Capannori, província de Lucca, na Toscana. Era filho de Giovanni Panelli e Maria Ângela Micheli, e tinha apenas 17 anos quando desembarcou em solo brasileiro. Luigi chegou em uma das levas de imigrantes, que na segunda metade do século XIX, fugiam das crises na Europa e buscavam melhores condições de vida na América Latina.
Muitos daqueles italianos foram absorvidos como mão de obra nas lavouras do café, que antes era realizada por africanos e descendentes escravizados. Foram cerca de 1,4 milhão de imigrantes. Alguns se deslocaram para o nordeste, sobretudo na Bahia, onde estabeleceram colônias agrícolas em Jequié, Maracás, Itiruçu e Jaguaquara. Foi neste município, no então distrito de Areia, hoje Ubaíra, que Luigi Panelli fixou-se.
Alto, bigodudo, olhos claros, azuis fuzilantes, o imigrante carcamano uniu-se a Geraldina de Jesus, uma jovem afrodescendente, que lhe deu seis filhos, sendo cinco homens e uma mulher. O primogênito do casal recebeu o nome de Valdevino. Também era alto, gostava de usar um chapéu de abas largas, e estava sempre na companhia do pai. Anália, a segunda da prole, morreu bem jovem, em decorrência de complicações no parto do seu único filho: Giasone Panelli de Castro, fruto de um casamento com Eliziário Ferreira de Castro. Na sequência nasceram João, Dante, Josué e Manoel. Todos com o sobrenome Panelli. Giasone, filho da Anália, também chamada de Lôla, faleceu em maio de 2024, aos 94 anos.
Em busca de terras férteis para a agricultura e formação de pastagens destinadas ao gado bovino, Luigi Panelli e seu filho Valdivino empreenderam uma longa viagem a cavalo até a região de Ipiaú, então denominada Rio Novo. Atravessaram o rio de Contas, e nas proximidades da localidade de Japomirim encontraram o que procuravam. Solo propício à lavoura, bom clima, abundância de chuvas.
No ano de 1922, Luigi Panelli adquiriu a Fazenda Fortaleza, que ocupava uma área de 204 hectares. Construiu habitações e buscou os outros filhos para ali iniciarem uma nova fase na vida da família. Derrubaram a mata, fizeram pastos, plantaram cacau na cabruca, criaram gado, prosperaram, construíram casas no centro de Ipiaú, constituíram famílias, multiplicaram-se. Com o tempo o lugar ficou conhecido como “Os Panelli”.
O patriarca Luigi, morreu em Salvador no dia 17 de maio de 1927, em decorrência de insuficiência mitral e foi enterrado no Cemitério do Campo Santo.

VALDIVINO
Nascido em 15 de dezembro de 1901 Valdivino Gomes Panelli casou-se com a professora Lélia de Almeida Sant’Ana, em 25 de janeiro de 1941, com a qual teve dois filhos: Wellington e Nira. Seguindo o exemplo do pai, Wellington dedicou-se ao empreendedorismo rural, prosperando na atividade. Nira graduou-se em Belas Artes, pela Universidade Federal da Bahia.
Lélia foi a primeira professora da comunidade de Japomirim, e também lecionou no Grupo Escolar Salvador da Matta, em Ipiaú. A família morava na Rua Dois de julho, centro da cidade.
Valdivino sempre esteve ao lado do patriarca. Ajudou a criar os irmãos, orientava, aconselhava, mostrava-se firme nos propósitos. De bom filho tornou-se bom pai. Não poupou esforços para que Wellington e Nira tivessem conforto e excelente educação. VadiviFaleceu em 22 de setembro de 1988, aos 87 anos.
JOÃO
João Panelli, nasceu no dia 10 de junho de 1906. Diferente dos seus irmãos, que se acomodaram em Ipiaú, tinha espírito aventureiro. Quando solteiro, passou uma temporada em São Paulo, onde exerceu a profissão de corretor de imóveis. Retornando à Bahia, casou-se em 24 de março de 1933, com Auta Castro Panelli, e dessa união nasceram Helita, Jaime, Hélia e Jaldo. Auta era filha do primeiro casamento de Elisiário Ferreira de Castro que após enviuvar, casou-se com Anália Panelli, mãe de Giasone.
Após o nascimento do segundo filho, o casal Auta e João Panelli, passou a residir em Poiri (atual cidade de Aurelino Leal), onde João esteve no cargo de suplente de delegado de polícia e dedicou-se ao comércio de compra e venda de cacau e também negociou com gado de corte, estendendo esta atividade até Valença. Em 29 de agosto de 1964, João faleceu em Jequié, tendo ali vivido os últimos anos da sua existência.
DIDI
Dante, apelidado de Didi, nasceu em 26 de janeiro de 1911 e faleceu na data de 20 de junho de 1985. Ele era o mais sociável dos Panelli. Gostava de festas, frequentava eventos, se mostrava politizado. Sentava no rol da sua casa com os amigos e discutia os fatos político-sociais da época. Era amigo do ex-governador da Bahia, Lomanto Júnior, em cujas veias também corria o sangue italiano. Dedicou-se à pecuária, destacando-se como negociante do gado bovino. Didi gerou três filhos. O primeiro recebeu o nome de Luis, sendo fruto de um casamento com Ruth, uma jovem natural de Ibirataia.
Da sua união com a segunda esposa, Hildete Torres Almeida Panelli (Dete), nasceram Dante e Roberto, sendo este apelidado de Tinho Panelli. A família morava na Rua Dois de Julho. Dante Gomes Penelli Filho, reside em Itacaré, dirige uma emissora de rádio nesta localidade e tem outros empreendimentos empresariais. Roberto Panelli, o popular “Tinho”, exerce um a atividade autônoma.

DUÉ
Josué, chamado de Dué Panelli (nascido em 13/4/1912 e falecido em setembro de 2002), casou-se com Eduarda Panelli (Dadinha), e morava num prédio de dois andares na Praça Rui Babosa. O casal teve quatro filhos: Lourival, Flordinice, Cleuza e Cleide Panelli. Lourival se destacou como habilidoso jogador de futebol, atuando nos times do Independente e Comerciários. Exerceu a profissão de eletrotécnico e é casado com a serventuária da Justiça, Ione Panelli, atual administradora do Fórum Jorge Calmon, da Comarca de Ipiaú. No último dia 6 de abril, Lourival completou 89 anos.
Cleuza, formou-se em professora e casou-se com o carioca Carlos Newton Teles, funcionário do Banco do Brasil. Cleide, também se formou em magistério, é casada com MacDonald, que também ficou na história de Ipiaú pela sua capacidade futebolística. Flordinice é a única descendente do casal que não mais se encontra no plano material.
Relatos de familiares dão conta de que, quando jovem, Dué era muito festeiro. Onde ele via um padre o acompanhava, porque sabia que tinha festa (casamento, batizado…). Era um bom pai, gostava muito de contar história. Recordava os casos narrados por Luigi, as labutas da família, a fixação na Fazenda Fortaleza, a vida em Ipiaú.
NENA
Manoel Gomes Panelli, popularmente conhecido como Nena Panelli, foi o caçula da prole do italiano Luigi. Nascido em 26 de fevereiro de 1915 e falecido em 4 de julho de 1988, Nena Panelli era discreto e justo. Precavido em tudo, principalmente nas questões financeiras, tinha poucos amigos e gostava muito de viajar. Falava baixo, expressava boa educação e calma. Muito elegante, usava calças e camisas de linho, bem engomadas. Nas tardes de domingo, cavalgava pelas ruas da cidade na companhia de Argemiro Souza, Nane, Pedro Cardoso e outros cavaleiros.
Nena construiu um prédio de dois andares na Rua Dois de julho, onde funcionou o Hotel São Jorge. Anteriormente, o imóvel serviu de alojamento para famílias desabrigadas pela enchente do Rio de Contas, em 1964. Embora não tenha casado, Nena deixou uma descendente de prenome Eronir. Os filhos de Luigi Panelli lhes deram netos e bisnetos. Apenas Wellington Panelli, filho de Valdivino, preservou parte da terra que herdou.
Os 30 hectares que lhe couberam da Fazenda Fortaleza, foram ampliados para 150. Adquiriu áreas de outros herdeiros e de vizinhos da propriedade. Mantém a tradição de criador de gado e agricultor. Mora na mesma casa onde Nena Panelli morou, na Rua Dois de julho
Antes e depois dos Panelli, outras famílias de origem italiana se estabeleceram em Ipiaú, contribuindo com o progresso do município e prestando relevantes serviços à comunidade local. Nesse elenco podemos citar os irmãos Braz e Miguel Grisi), José Miraglia, Antônio Alagia, Braz Contelli e a família de Francisco Forte.
O sobrenome Panelli tem origem na região da Toscana, com natureza ocupacional. Deriva da palavra italiana “panello” (painel ou tábua), historicamente identifica marceneiros, carpinteiros ou pessoas que viviam próximas a estruturas de painéis.

